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terça-feira, 28 de julho de 2015

A Igreja em Conversão Pastoral



26. Em honra da verdade, devemos reconhecer que hoje na América a visão da
Igreja não está determinada pelo seu dinamismo missionário. Sua principal atividade,
normal, não é a missão ou a evangelização, mas o que se chama “atividade
pastoral” que, pressupondo haver sido pregada e aceita a fé, leva consigo certos
compromissos e ações dirigidos ao amadurecimento da fé dos crentes, à sua santificação
por meio dos sacramentos, à defesa de sua fidelidade e à promoção da
sua coerência com a fé que professam.

27. O contraste existente entre uma “pastoral de conservação” e uma “pastoral
missionária” pode ser iluminado a partir da imagem bíblica que expressamente
dá nova interpretação cristológica à metáfora apocalíptica do fim do mundo: a
imagem do grão de trigo que morre e assim dá muitos frutos. Na ordem pessoal, é
necessário nascer de novo da água e do Espírito; na ordem eclesial, será preciso
morrer para certas formas históricas como o clericalismo, o sacramentalismo, o
autoritarismo, o centralismo e todo tipo de estrutura que não gera vida e fraternidade
no Espírito. A essa mudança chamamos de conversão pastoral, que pode
ser comparada à experiência do deserto. O deserto era o caminho doloroso a ser
percorrido para alcançar a terra prometida (Canaã) depois de deixar corajosamente
a terra da escravidão (Egito). A Igreja primitiva também teve que atravessar seu
deserto.

28. Os primeiros apóstolos tiveram que romper com as práticas judaicas, como havia
feito o Mestre de Nazaré, violando o sábado e as proibições do tratamento com
os enfermos e excluídos da sociedade a fim de trazer vida, e vida em abundância
para todos. Desse modo, esses judeus cristãos criaram novas práticas pastorais,
como sair da própria geografia palestina e levar a Boa Notícia a outros países,
adotar novas linguagens, como maneira de inculturar o Evangelho ou fazer dos
lugares domésticos casas de culto (Cf. At 29,8). A audácia pastoral de São Paulo
leva a Igreja primitiva a dispensar os cristãos vindos do paganismo de práticas judaicas,
como a circuncisão. Assim, a Igreja, deixando-se guiar pelo Espírito, transforma
sua prática pastoral para fazer chegar o Evangelho a todos os lugares.

29. As pequenas comunidades fizeram a transição. O espaço que separava o
mundo pagão e os membros do Reino de Deus foi permeado pela experiência de
comunhão dos primeiros cristãos (Cf. At 2, 42-49), que se configurou como subcultura
emergente, que chegou a transformar a sociedade. A transição foi possível
graças a uma profunda experiência de fé em Cristo ressuscitado e pelo protagonismo
aceito do Espírito Santo, com a docilidade dos missionários (Cf. O. Martinez.
No começo foi a casa).

30. Na história da Igreja na América Latina há uma longa lista de famosos missionários
que abriram brechas em diversas frentes pastorais. Alguns se esforçaram
para aprender as línguas nativas e entender o Evangelho com maior profundidade,
e outros se dedicaram a estudar as culturas indígenas e mestiças para inculturar
o Evangelho. Isso permitiu dar os primeiros passos em uma Igreja autóctone, com
rosto próprio e novos critérios pastorais.

31. Voltar a esta fonte é o maior desafio para a Igreja: ela é “chamada a repensar
profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas
circunstâncias latino-americanas e mundiais... Trata-se de confirmar, renovar e
revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um encontro
pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos missionários”
(DA 11). Procura-se uma nova evangelização, que deve ser missionária, em
diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos os homens (Cf. DA 13). Diante
dos tempos em mudança que vivemos e à explícita recusa dos sinais cristãos, o
Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização fornece importantes propostas e
pistas.

32. O desafio fundamental que enfrentamos é mostrar a capacidade de a Igreja
promover e formar missionários que respondam à vocação recebida e comuniquem
em todos os lugares com imensa gratidão a alegria do dom do encontro com
Cristo. Não há outro tesouro a não ser este. Não possuímos outra felicidade nem
outra prioridade senão a de ser na Igreja instrumentos do Espírito de Deus, para
Jesus Cristo ser encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado
a todos, apesar das dificuldades e resistências. Para concluir incisivamente: “Este
é o melhor serviço – o seu serviço! – que a Igreja deve oferecer às pessoas e nações”
(DA 14).

Fonte: INSTRUMENTO DE PARTICIPAÇÃO CAM 4 - Comla 9

terça-feira, 30 de junho de 2015

A MISSÃO DO LEIGO



“Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.” (1Tm 2,4)

A missão de evangelizar é de todos os cristãos; cada batizado é membro de Cristo e por isso participa da missão da Igreja que é levar o evangelho da salvação a todos os povos e a todas as pessoas. Jesus não quis e não quer salvar o mundo sem a nossa cooperação; assim nos dá a honra e a glória de sermos participantes de seu múnus profético.
O que podemos fazer mais de importante na vida é levar Cristo ao coração das pessoas, pois “só nele existe salvação”(At 4,12). Ele é a “Luz do mundo” (Jo 8,12).

“Sem Jesus Cristo o homem permanece para si mesmo um desconhecido, um mistério insondável, um enigma indecifrável”.
Beato João Paulo II, Encíclica “Jesus redentor dos homens”.

São Paulo nos diz que a fé e a salvação entram pelo ouvido:
“Ora, como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele que não ouviram? E como o ouvirão, se ninguém o proclamar? E como o proclamarão, se não houver enviados? Assim é que está escrito: “Quão bem-vindos os pés dos que anunciam boas novas!” Mas nem todos obedeceram à Boa Nova, pois Isaías diz: “Senhor, quem acreditou em nossa pregação?” Logo, a fé vem pela pregação e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10, 14-17).

“Pois, anunciar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o evangelho! Se eu o fizesse por iniciativa minha, teria direito a uma recompensa. Mas se o faço por imposição, trata-se de uma incumbência a mim confiada. Então, qual é a minha recompensa? Ela está no fato de eu anunciar o evangelho gratuitamente, sem fazer uso do direito que o evangelho me confere”  ( I Cor 9,16-18).

Jesus disse que a messe é grande, mas que os operários são poucos (Mt 9,37) isso é, há muitas almas a serem salvas, mas há poucos evangelizadores, catequistas, missionários, padres, e etc., e Ele chama cada um que se disponha a servir. Ninguém deve se julgar pequeno para o serviço de Deus.

É vontade de Deus que cada leigo seja evangelizador; dê testemunho de Cristo e do Evangelho e no meio do mundo seja luz e sal da terra. O Concílio Vaticano II resgatou de maneira iluminada o papel do leigo na Igreja; por isso hoje, homens e mulheres leigos, jovens, fazem um trabalho maravilhoso de evangelização. Com a enorme falta de sacerdotes, o leigo pode e deve dar a sua grande contribuição à Igreja na missão de salvar almas.

“Todo leigo, em virtude dos dons que lhe foram conferidos, é ao mesmo tempo testemunha e instrumento vivo da própria missão da Igreja ‘pela medida do dom de Cristo” (Ef 4,7) (Catecismo da Igreja Católica §913).
Fiéis são os que, incorporados a Cristo pelo batismo, foram constituídos como povo de Deus e assim, feitos participantes, a seu modo, do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, são chamados a exercer, segundo a condição própria de cada um, a missão que Deus confiou para a Igreja cumprir no mundo (Código de Direito Canônico, 204).

“Aos leigos compete [é específico dos leigos], por vocação própria, buscar o Reino de Deus ocupando-se das coisas temporais [os trabalhos profissionais, participação em organizações profissionais, culturais, empresariais, operárias, políticas, etc.] e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, no meio de todas e cada uma das atividades e profissões, e nas circunstâncias ordinárias da vida familiar e social, as quais como que tecem a sua existência. Aí os chama Deus a contribuírem, do interior, à maneira de fermento, para a santificação do mundo, através de sua própria função [...]. A eles, portanto, compete muito especialmente esclarecer e ordenar todas as coisas temporais, com as quais estão intimamente comprometidos, de tal maneira que sempre se realizem segundo o espírito de Cristo, se desenvolvam e louvem o Criador e o Redentor”
 Lumen gentium, n. 31.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Eclesiologia do Documento de Aparecida - IGREJA E MISSÃO




O discurso inaugural do Papa Bento XVI na abertura da V Conferência teve uma importância decisiva na elaboração do Documento de Aparecida, pois o Papa apontava para os Desafios da sociedade de hoje:
·                    O inpacto da sociedade pluralista na fé dos católicos, que acaba por enfraquecer e relativizar a visão cristã da realidade. A visão cristã etava se limitando a visão de um humanismo atrofiado que por sua vez estava se tornando presa do hedonismo, do secularismo e do indiferentismo. Deste modo a identidade católica se vê questionada e desgastada em muitos membros da Igreja, especialmente  por cusa da ausência de uma autêntica formação cristã. Este desafio irá exigir uma séria reflexão sobre a identidade do discípulo de Cristo;   
·                    Um outro fator diz respeito às mudanças de cunho social, cultural, político e econômico que vem passando o nosso planeta.

A. A Igreja como realidade intrinsecamente missionária

Abordamos aqui, embora brevemente, a. fundamentação teológica da missão como componente essencial da Igreja. Já presente na ideia de Israel como "luz para as nações", ela se faz presente no Novo Povo de Deus através do envio dos apóstolos, por parte de Jesus Cristo, a proclamar o Evangelho do Reino a todos os povos. A Igreja recebe todo o seu sentido por estar a serviço do Reino de Deus. Esta verdade receberá uma formulação precisa no Concílio Vaticano II através da noção de sinal do Reino presente e futuro, a saber, "como sacramento universal da salvação" (LG 48).

B. Características marcantes desta missão da Igreja

Observemos primeiramente que o tema da missão atravessa todo o Documento. Desde o seu início se ressalta que a fé de muitos cristãos sofre o impacto da atual cultura secularizada exigindo, portanto, "uma evangelização muito mais missionária" (13). Igualmente a sua conclusão insiste mais de uma vez na índole missionária de todo cristão. Devemos sair ao encontro das pessoas para "partilhar o dom do encontro com Cristo", não podemos ficar passivos, devemos "proclamar que o mal e a morte não têm a última palavra", "somos todos testemunhas e missionários" (548). Para isso devemos nos converter, devemos "ser novamente evangelizadose" e estar "conscientes de nossa responsabilidade" pelos que estão afastados (549). Impõe-se "uma missão evangelizadora" que mobilize a todos (550) e que deve se concretizar numa "missão continental" (551).
O advento da sociedade moderna, pluralista, secularizada, fragmentada, significou o fim da época da cristandade. Na época da cristandade a fé cristã era hegemónica, fornecendo uma visão do mundo e normas éticas que moldavam a sociedade. Ter fé nada exigia de especial, já que todos a professavam, embora a vivessem diferentemente. A fé era um pressuposto implícito na cultura da época. A sociedade respaldava esta fé que, na maioria dos casos, carecia de uma formação cristã adequada. Deste modo podemos caracterizar a pastoral da Igreja neste período como uma "pastoral de conservação" que. hoje, se mostra insuficiente e inadequada. Devemos, portanto, voltar à pastoral de conquista que caracterizou a Igreja em seu início e que só foi abandonada pelo surgimento da cristandade e da união da Igreja com o poder civil a partir de Constantino. A atual sociedade pluralista nos oferece uma situação de Igreja em diáspora muito semelhante a dos primeiros séculos.

Outra característica do discípulo de Cristo como missionário, fortemente enfatizada em Aparecida, diz respeito à formação da própria identidade do cristão, que aparece como condição para sua vocação pastoral. Já que a fé não é mais simplesmente pressuposta, tal como se dava no passado, se impõe um encontro pessoal com Jesus Cristo. Aqui o texto retoma as palavras de Bento XVI na encíclica Deus Caritas Est (DCE 1): "Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou por uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e, com isso, uma orientação decisiva" (243). Assim nasceu o cristianismo através da experiência dos primeiros discípulos com Jesus Cristo, fascinados com sua pessoa (244). Este traço também é requerido em nossos dias, pois a vocação cristã "responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena" (277).

Este encontro acontece hoje através da proclamação do kerigma (289) e implica uma experiência salvífïca pessoal, fundamento do compromisso com Jesus Cristo e com sua missão (290). Deste encontro se deslancha todo um processo de formação, que apresenta várias etapas, não só sucessivas, mas também interagindo entre si. O Documento descreve as etapas deste modo: o encontro com Jesus Cristo, a conversão, o discipulado, a comunhão e a missão (278). Discipulado está aqui significando um crescimento na vocação cristã, também do ponto de vista doutrinal, e comunhão lembra a dimensão comunitária da vida cristã com tudo o que daí decorre. Observa-se ainda que a missão é inseparável do discipulado, estando assim sempre presente na vida do cristão, embora se realize diversamente. Com relação aos pronunciamentos anteriores da Igreja o texto de Aparecida apresenta duas novidades. Primeiramente ao insistir na importância da experiência salvífïca pessoal no encontro com Jesus Cristo quando no passado a preocupação maior era com a catequese doutrinal. A outra novidade está na ênfase dada à evangelização quando no passado a pastoral estava mais centrada nos sacramentos. O fim da cristandade não se limita somente ao continente latino-americano.

A missão tal como a compreende o texto de Aparecida vem caracterizada como uma "missão a serviço da vida plena" (título do capítulo VII) e recebe base escriturística (355) no conhecido versículo de João: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham plenamente" (Jo 10,10). Esta vida é uma realidade em nós por participarmos da própria vida de Deus ao acolhermos a pessoa de Jesus Cristo (348), uma vida nova que nos incorpora a uma comunidade eclesial de outros que vivem esta mesma vida (349). Mas, como discípulos, devemos nos colocar a serviço da vida integrai como o fez Jesus ao curar enfermos, reintegrar excluídos na sociedade, saciar os famintos, perdoar os pecadores, conviver com todas classes de pessoas, sensibilizar-se pêlos mais pobres (353). Esta vida integral deverá ser vivida pelo próprio discípulo em todas as suas dimensões: "pessoal, familiar, social e cultural". Como diz expressamente o texto: "A vida em Cristo inclui a alegria de comer junto, o entusiasmo de progredir, o gosto de trabalhar e aprender, o prazer de servir a quem necessite, o contato com a natureza, o entusiasmo dos projetos comunitários, o prazer da sexualidade vivida segundo o Evangelho" (356).|

E já que "não podemos conceber uma oferta de vida em Cristo sem um dinamismo de libertação integral, de humanização, de reconciliação e de inserção social" (359), é importante que ela esteja presente em todas as atividades da Igreja. "Por isso a doutrina, as normas, as orientações éticas, e toda a atividade missionária da Igreja devem deixar transparecer esta oferta atraente de uma vida mais digna, em Cristo, para cada homem e para cada mulher da América Latina e do Caribe" (361).

Esta missão deve estar voltada também para os "novos areópagos e centros de decisão". O mundo da mídia, dos construtores da paz, dos que lutam pelo desenvolvimento e libertação dos povos, sobretudo das minorias, pela promoção da mulher e das crianças, pela ecologia e proteção da natureza. Também o areópago da cultura, dos experimentos científicos, das relações internacionais (491), sem deixar de lado a pastoral do turismo e do lazer (493). Urge formar pensadores e pessoas situadas nos centros de decisão: empresários, políticos, formadores de opinião, dirigentes sindicais (492).

Mas também deve se dirigir aos pobres, através de opções e de gestos visíveis que busquem mudar sua situação. Trata-se de "um âmbito que caracteriza de modo decisivo a vida cristã, o estilo eclesial e a programação pastoral" (394 citando Novo Millenium Ineunte 49). Daí, o apelo por "uma renovada pastoral social para a promoção humana integral" expressa no VIII capítulo do Documento (8.4), bem como a nos voltarmos aos rostos sofridos: habitantes de rua, enfermos, drogados, migrantes, presos (8.6).

Toda a Igreja se encontra envolvida nesta missão em prol do Reino de Deus. Todo discípulo é missionário, pois ao se comprometer com Jesus Cristo, necessariamente já se vincula com sua missão. Portanto testemunhar a morte e a ressurreição salvíficas de Jesus Cristo "não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã" (144). A missão consiste mais em partilhar e comunicar uma experiência plenifícante na alegria e na gratidão (145). Esta afirmação volta continuamente ao longo do Documento conforme os variados temas vão sendo tratados. Uma afirmação que vale assim para todo o Povo de Deus, a começar pêlos bispos juntamente com suas respectivas dioceses, que devem "robustecer sua consciência missionária", indo ao encontro dos afastados da vida eclesial  através  de  uma pastoral  orgânica renovadana  qual  todos  os  da  diocese, independente de seus carismas, estejam inseridos (168 e 169). Também os párocos devem viver "num constante anseio de buscar os afastados e não se contentar com a simples administração" (201). "A V Conferência Geral é uma oportunidade para que todas nossas paróquias se tornem missionárias" (173). De fato, "todos os membros da comunidade paroquial são responsáveis pela evangelização de homens e mulheres em cada ambiente" (171). Para isso devem as paróquias "reformular suas estruturas para que sejam uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articularem para que seus participantes se sintam e sejam, realmente, em comunhão, discípulos e missionários de Jesus Cristo" (172).

os diáconos permanentes devem se dedicar a "grupos humanos específicos e pastorais ambientais", bem como devem ser "apóstolos em suas famílias, em seus trabalhos, em suas comunidades e nas novas fronteiras da missão" (208). Os consagrados\as anunciam o Evangelho "através de sua presença, vida comunitária e obras", principalmente aos mais pobres, o que de fato se deu neste continente desde o início da evangelização. Deste modo colaboram "com a gestação de uma nova geração de discípulos missionários e de uma sociedade na qual a justiça e a dignidade da pessoa humana sejam respeitadas" (217).

O Documento deixa bastante explícito seu apelo por um laicato missionário. Devem ser formados para fazer frente aos desafios da atual sociedade, entrando no mundo complexo do trabalho, da cultura, das ciências e das artes, da política, dos meios de comunicação e da economia, enfim em contextos nos quais tormam presente a Igreja (174 e 210). Eles participam assim da "ação pastoral da Igreja, primeiramente pelo seu testemunho de vida e, em segundo lugar, com ações no campo da evangelização, da vida litúrgica e em outras formas de apostolado" (211). Por isso mesmo devem gozar de maior espaço de participação e serem incumbidos de ministérios e de responsabilidades para que possam viver de modo responsável seu compromisso cristão (211).

Só assim haverá uma efetiva corresponsabilidade e participação de todos os fiéis na vida das comunidades (368). Só assim, devidamente formados, poderão atuar como verdadeiros sujeitos eclesiais e competentes interlocutores entre a Igreja e a sociedade (497). Só assim poderão também assumir sua responsabilidade na vida pública (508). Portanto devem participar dos projetos pastorais diocesanos "no discernimento, na tomada de decisões, na planificação e na execução" (371), sendo assim "parte ativa e criativa na elaboração e execução de tais projetos" (213). O Documento observa, fazendo suas as palavras de Bento XVI em seu Discurso Inaugural (4), que há "uma notável ausência no âmbito político, comunicativo e universitário de vozes e iniciativas de líderes católicos de forte personalidade e de vocação abnegada que sejam coerentes com suas convicções éticas e religiosas" (502), lutando pela vida em todas as suas formas (503) e colaborando "na construção de uma cidade temporal de acordo com o projeto de Deus" (505). De fato, já nos acostumamos a assistir a uma imediata intervenção da hierarquia, sempre que surge algum problema que atinja a Igreja. Não vemos uma tomada de posição por parte de leigos católicos, conhecedores da matéria, que amadureçam a questão por seus pronunciamentos e debates, abrindo assim caminho para uma declaração posterior mais completa e profunda do bispo ou mesmo do episcopado. Naturalmente, além da correspondente liberdade para intervir, se requer uma formação adequada, o que não passou desapercebido aos bispos em Aparecida.

Reflexão feita por Mário de França Miranda


terça-feira, 26 de maio de 2015

Missão Ad Gentes



A missão aos povos sempre foi, é e sempre será a grande tarefa da Igreja, assumida por suas comunidades às vezes com certa resistência. Repetidas vezes se tenta minimizar, postergar ou até depreciar esse desafio, com a desculpa‐urgência que a missão está aqui no nosso meio, ou que a missão passou a ser outra coisa. Acabar com a missão ad gentes é acabar com a graça da missão. Assim como a palavra “missão”, também a palavra “míssil” vem da mesma raiz “missio”, que quer dizer “envio”. O míssil não é feito para ficar parado. Da mesma forma a Igreja também não é feita para ficar apenas constituída em suas instituições, em seus assentos e em suas estruturas: ela foi criada para pegar fogo e se lançar ao mundo. Essa é sua natureza!

Talvez o receio de invadir o espaço do outro, de importunar as culturas, de promover sem
querer uma conquista espiritual com as melhores das intenções, nos leve a um preconceito e a uma relutância contra essa perspectiva. Os traumas e as cicatrizes do passado contam de profundas feridas na alma dos nossos povos. É uma história que não gostaríamos de repetir sem mais nem menos.

É fundamental, como dissemos, ter discernimento, atitude penitencial e aprender a prestar
atenção às assimetrias criadas por sensos de superioridade e aproximações voluntaristas. Por outro lado, o Pe. Comblin nos convida também a essa interessante reflexão:
“A irredutibilidade das culturas tende a desanimar toda tentativa missionária. Em certos
casos, ela levou a propor certas posições pastorais que são válidas até certo ponto e de modo muito relativo. Assim a evangelização do semelhante pelo semelhante. O evangelho tende a mostrar que, muito pelo contrário, a evangelização radical é obra do estrangeiro. 

Uma mensagem comunicada pelo semelhante ao semelhante reduz‐se facilmente a um puro monólogo. O interlocutor ouve‐se a si mesmo e encontra prazer e satisfação na palavra, porque ele se ouve e se reconhece. Com essas condições não há evangelização possível. Pois esta vem da parte de fora e exige que o sujeito se abra a uma novidade e esteja disposto a romper os seus hábitos mentais e vivenciais. Jesus foi um estrangeiro, e todos os missionáriostambém aparecem como estrangeiros. Não procuram ocultar essa condição. Jesus não quis atenuá‐la no caso dos seus discípulos: não os mandou para os seus semelhantes e sim para todas as nações do mundo cuja cultura lhes era completamente alheia”.

E continua: “Crer na missão é também crer que há em todas as pessoas uma abertura fundamental, uma capacidade de recepção de mensagens situadas além da cultura, um apelo virtual a uma luz própria. Crer na missão é crer que a pessoa não fica presa dentro da sua cultura, isto é, dentro de uma personalidade autônoma e fechada”.25

Que o Espírito do Senhor nos ensine sempre a crer firmemente na missão, a não viver uma fé introvertida e intimista, e nos abra continuamente as portas para sair de nós mesmos, de
nossas comunidades e movimentos, de nossas paróquias e de nossas dioceses. “Para nos
converter e uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo
evangelizados” (cf. DAp 549) no encontro com os povos, com os outros, com os pobres, além de toda fronteiras, como discípulos missionários comprometidos com a transformação do Brasil para um mundo melhor.

Pe. Estêvão Raschietti, sx

sábado, 23 de maio de 2015

Nossa missão é...

Grato eu estou Senhor porque me confiaste a missão de proclamar o seu eterno amor! Mesmo sendo tão pequeno, me deste autoridade de em seu nome anunciar a paz e a liberdade...


sexta-feira, 22 de maio de 2015

A MISSÃO!





A missão vem do PAI: “O Pai que está no céu não quer que se perca um só destes pequeninos” (Mt 18,24). É Ele o dono da messe, o proprietário da vinha que envia seus servos a trabalhar e recolher os frutos. Para isso Ele precisa de muitos operários.

A missão vem do FILHO: “Deus amou de tal maneira o mundo que lhe deu seu filho único para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Jesus apresenta-se como o missionário do Pai. A Ele o Pai deu “todo o poder”.

A missão vem do ESPÍRITO SANTO: “Recebereis a força do Espírito Santo e sereis minhas testemunhas até os confins do mundo” (At 1,8). Sem o Espírito Santo a obra missionária do homem não vale nada. É o Espírito Santo que distribui os carismas para a utilidade de todos e inspira a vocação missionária.

A função da Igreja, através de todos os batizados, é realizar a missão de Jesus: ser mediadora, ser fiel, encarnada na realidade, doar-se completamente, até o martírio... A Igreja deve pregar a boa nova a todos os homens!

Missão é paixão! Cristo quer cristãos apaixonados por Ele, pelo seu Reino, pelos esquecidos do mundo inteiro... Assim como Paulo, Francisco Xavier, Teresinha, Madre Teresa de Calcutá, inúmeros missionários dos cinco continentes, que partiram de nossas comunidades... Se sentiram levados e animados por essa paixão.




“O missionário
deve ter consciência
de que trabalha numa obra

de altíssimo mérito,
mas árdua e penosa.
Ele deve ser como a pedra
escondida debaixo da terra.
Ela talvez nunca venha à luz, 
mas faz parte dos alicerces
de um novo e imenso sacrifício.
O Missionário
deve estar disposto
a ocupar o último lugar.
Isso muitas vezes significa
trabalhar, cansar e suar
sem que ninguém fique 
sabendo o que ele faz,
a não ser Deus.”



Daniel Comboni






quinta-feira, 21 de maio de 2015

O PERFIL DE UM MISSIONÁRIO



.O missionário tem na cabeça:
A fé no valor do povo.
Nos olhos:
A capacidade de enxergar a presença de Deus na realidade.

Nos ouvidos:
A escuta respeitosa e atenta.

Na boca:
O sorriso da alegria e da esperança.

Nos braços:
A resistência e a luta pelo Reino.

Nas mãos:
A disponibilidade solidária.

Nos pés:
A itinerância e capacidade de desinstalar-se e sair.

No coração:
A paixão pelo Cristo e pelos pobres.

No ventre:
A VIDA!



Essência da Alma Missionária




O que na vida é essencial?

Que retribuiremos ao Senhor por tudo que Ele nos deu? Essa pergunta é bíblica e podemos considerá-la essencial para não nos perdermos no supérfluo, ou ainda, nos “assessórios”. Não nos perdemos nesse tudo? Pois o próprio Criador viu que tudo “era bom” e nos colocou no meio do “tudo”.

São Basílio Magno escrevendo sobre isso faz outra interrogação: “ Como descrever os dons de Deus aos homens?” Entre tantos, diz ele, há um que por mais esforço jamais o louvaríamos condignamente: “Deus nos criou à Sua Imagem e Semelhança”. O que há, de fato, de mais essencial?

Perder essa essência é viver de tal modo que o homem seja sua própria origem, o centro de si mesmo. Nada para o semelhante, a não ser a busca do outro dos próprios interesses. Onde fica o missionário existente em cada ser humano?

Uma alma missionária começa descobrindo um coração saindo de si para o outro. “Eis-me aqui, Senhor, para fazer a Tua vontade”.

Fazer a vontade de Deus, o que é senão, descobrir-se como própria imagem e semelhança na doação de si mesmo? Descobrir em si e sair “correndo às montanhas” (Maria) e anunciar ao outro: “O Poderoso fez grandes coisas em meu favor”! Ou ainda, descobrir no outro a transformação pessoal:  “Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? A criança estremeceu no meu ventre” (Isabel), “o outro”.

Nesta missão, no Piauí, um senhor cego me perguntou: “Padre, o senhor saberá me dizer qual é a luz mais forte que existe?” Depois de um silêncio ele mesmo respondeu: “é a sabedoria”, porque mesmo com a luz do sol, a minha vida é aqui, é sempre uma escuridão. Mas a sabedoria continua iluminando minha mente e eu preciso muito dessa luz! Não é?”

Então o missionário nasce da necessidade de conhecer sua essência. Penso ser possível sem sair de si mesmo. “Quem não renuncia a tudo que possui  e até própria vida não pode ser meu discípulo”. Para muitos dizem que fazer missão na “própria casa”, até penso ser possível, todavia, precisamos tomar cuidado com os “assessórios” que adornam nossa vida e nosso ministério, seja de quem for, ordenado ou leigo.

Para ser missionário, “dentro ou fora de casa”, um pedido constante é necessário: “Ilumina, Senhor, os OLHOS de minha ALMA” para que minha mente e meu coração não se percam no essencial.
Vamos mostrar a essência de Deus em nós para que descubram no DOM de nós mesmos a essências das criaturas.


Pe. Lalim Urbinatti

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ser Discípulos do Senhor!



Um dos caminhos da gênesis do discipulado nasce da pergunta: “Mestre onde moras? Venham e vocês verão. Então eles foram... E começaram a viver com Ele”, Jo (1,38-39). Tudo se dá a partir do “Encontro”. Ser discípulo é bem mais do que ser “adepto de uma pessoa”. No itinerário da missão apresentado por Jesus, ser discípulo é ver Nele o único Mestre, é fazer de seu Projeto o ideal de vida.

Na contínua busca da descoberta do que venha ser discípulo, encontraremos em (At 11,26) uma grande inspiração quando diz: “... Em Antioquia chamaram pela primeira vez os discípulos de cristãos”. E o que é ser cristão? É ser discípulo de Cristo no sentido de segui-lo e estar ligado a Ele pessoalmente, manifestando assim, a experiência do “Encontro”. É neste contexto que se fundamenta a vocação missionária. 

Os discípulos de Jesus não se limitavam a transmitir o que o Mestre havia dito, palavra por palavra, mas, a serem “testemunhas” da vida e dos fatos que Jesus realizou, anunciar o Reino e fazer com que esta realidade se tornasse possível. Os discípulos transmitindo a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, são mais testemunhas do que veículos das tradições e leis verbais. Como chegaram a ser discípulos de Jesus? O Documento de Aparecida diz: “Os que se sentiram atraídos pela sabedoria das suas palavras, pela bondade do seu tratamento e pelo poder dos seus milagres, pelo assombro inusitado que despertava sua pessoa chegaram a ser discípulos de Jesus” (DAp 21).

Jesus, ao contrário dos mestres da época, era um Mestre itinerante. Não formou, por isso, discípulos sedentários, mas os associou a suas andanças missionárias. O discípulo é chamado a ser missionário e este, por sua vez, deixar ser “disciplinado” pelo Mestre.
A tarefa do discípulo, a exemplo do Mestre e sob o impulso do Espírito, é a de construir a verdadeira comunhão entre os homens. Ele só pode ser construtor da Comunhão porque já vive a comunhão. “Somos missionários por sermos Igreja que vive na unidade do amor e não tanto por aquilo que fazemos” (RM, 23).


“Não se pode testemunhar Cristo sem espelhar a Sua imagem, que é gravada em nós por obra e graça do Espírito. A docilidade ao Espírito permitirá acolher os dons da fortaleza e do discernimento, que são traços essenciais da espiritualidade missionária. (...) Como então, hoje é necessário rezar para que Deus nos conceda o entusiasmo para proclamar o Evangelho. Temos de prescrutar os caminhos misteriosos do Espírito e, por Ele, nos deixarmos conduzir para a verdade total (cf. Jo 16, 13)” (RMi, 87).